Fibras Curtas e o Paradoxo da Integridade do Absorvente: Mito ou Realidade?
Atuo no setor de fraldas há 34 anos. Em 1984, quando perguntei sobre o núcleo absorvente das fraldas, me disseram que ele era feito com fibras de celulose — e que quanto mais longas fossem essas fibras, melhor seria o desempenho. Periodicamente, precisávamos enviar amostras de fluff para nossos fornecedores apenas para garantir que os moinhos de martelo continuavam funcionando adequadamente. Se o comprimento médio das fibras começasse a cair abaixo de 1,8 mm (quando o ideal era entre 2,3 e 2,6 mm, dependendo da celulose utilizada), era necessário substituir os discos do moinho por lâminas mais afiadas e testá-lo novamente. Na prática, se o preço fosse o mesmo, preferíamos fornecedores que entregassem fibras mais longas.
Poucos anos depois, já na segunda metade da década de 1980, as fraldas passaram a incorporar polímeros superabsorventes (PSA). Com isso, a quantidade de fluff no núcleo diminuiu para aumentar a capacidade de retenção e reduzir o volume do produto nas prateleiras. No entanto, o aumento da proporção de PSA trouxe um problema novo: o líquido demorava mais para penetrar no núcleo, causando vazamentos prematuros. Para resolver isso, introduziu-se um novo componente — a camada de aquisição e distribuição (ADL). Logo percebemos que, quanto maior a proporção de PSA, maior precisava ser a gramatura da ADL para evitar aumento no tempo de absorção.
Durante anos, buscamos fabricar produtos cada vez mais finos, mas isso frequentemente comprometia a integridade do núcleo. Quando a fralda ficava totalmente saturada, o painel podia se desmanchar. O comprimento das fibras e a densidade do painel eram sempre apontados como culpados, funcionando como justificativas padrão diante de reclamações de consumidores. Também era difícil aumentar a densidade do painel sem riscos, pois produtos muito densos se tornavam duros, como “papelão”. Além disso, a densidade medida antes do uso não representava o comportamento real após alguns minutos em contato com o corpo.
Com o aumento da velocidade das máquinas, surgiram novos desafios. Tornou-se necessário substituir o invólucro do núcleo (antes feito de tecido) por TNT leve para evitar rupturas durante os cortes automáticos. Essa mudança ajudou a reduzir o retorno de líquido para a superfície, mas agravou o problema da integridade estrutural. A situação tornou-se tão crítica que fornecedores desenvolveram adesivos hot melt específicos para “integridade de núcleo”. Testes com usuários mostraram que a aplicação desse adesivo especial era altamente eficaz para manter o painel intacto, mesmo quando totalmente saturado.
À medida que a proporção de PSA ultrapassou a marca de 70%, novos tipos de PSA e novas ADLs foram desenvolvidos. Porém, ADLs muito espessas — acima de 80 ou 100 GSM — criaram novos problemas. Microgotas podiam ficar aprisionadas dentro delas, resultando em excelentes tempos de absorção, mas pior retorno de líquido, especialmente durante o primeiro insulto. As ADLs mais eficientes passaram a ser aquelas que utilizavam combinações de diferentes deniers entre a camada superior e a própria ADL, criando múltiplas camadas funcionais. Esse design melhorava o transporte de líquidos, reduzia aprisionamentos e proporcionava produtos mais secos, além de funcionar melhor com gramaturas menores.
As fraldas modernas aproveitam esses gradientes de densidade na camada superior e na ADL, além de distribuir PSAs com diferentes características em camadas distintas do núcleo. Porém, ainda há pouco avanço no uso de diferentes tipos de celulose, especialmente quanto aos deniers das fibras. Hoje sabemos que as forças de ligação de hidrogênio variam entre os diferentes tipos de fibra. Uma fibra curta, de um determinado tipo de árvore, pode ter ligações mais fortes que uma fibra longa de pinus.
Em fraldas adultas, um cenário típico envolve duas rodas formadoras: um painel menor sobre um painel maior. Por quase 50 anos, assumiu-se que o núcleo deveria utilizar fibras longas, mesmo depois que o problema da integridade estrutural já havia sido resolvido. Também há evidências sólidas de que gradientes de densidade ajudam a transportar líquidos para longe da superfície, funcionando como uma válvula de retenção. Talvez seja hora de revisitar essa tradição e reavaliar esses paradigmas.
Está claro que fibras curtas aumentam significativamente a capilaridade do núcleo. Painéis feitos com fibras curtas tendem a ser mais macios e suportam densidades maiores. Assim, podemos esperar que fraldas com maior proporção de fibras curtas ofereçam maior capacidade de retenção e menor espessura, quando comparadas às produzidas com fibras longas como as de pinus. Também podemos esperar menos retorno de fluido e produtos mais secos, devido à melhor drenagem do núcleo. Embora isso nem sempre apareça em testes laboratoriais tradicionais, essa diferença pode ser observada em testes de uso real, quando usuários exercem pressões dinâmicas sobre o painel. Em contrapartida, núcleos mais densos feitos com fibras curtas provavelmente precisarão de ADLs de melhor performance para evitar aumento no tempo de absorção.
Um núcleo produzido com duas rodas formadoras pode combinar o melhor dos dois mundos, utilizando celuloses diferentes em cada painel e extraindo o máximo benefício das fibras curtas sem comprometer a integridade. Existem muitas aplicações em que o uso de fibras curtas melhora o desempenho geral. Por outro lado, também é fácil imaginar produtos em que as fibras curtas não são vantajosas, como fraldas adultas com núcleo único e sem tiras laterais, nas quais a absorção mais lenta pode gerar vazamentos — especialmente se não houver equilíbrio adequado com uma ADL de maior eficiência.
Em conclusão, é totalmente possível criar novas configurações de núcleo que melhorem o desempenho das fraldas sem aumentar o custo. Podemos desenvolver fraldas mais macias e finas, com maior capacidade e capilaridade, desde que estejamos abertos a considerar o uso de fibras curtas em suas formulações. A empresa que chegar ao design ideal do núcleo absorvente garantirá vantagens competitivas importantes.
